Éguas!!! Me xingaram de maranhense!!!


Tudo ia bem até os 45 minutos do segundo tempo. O juiz deu mais alguns de acréscimo só pra ferrar com meu Mengão. E foi justamente nesse momento que a desgraça aconteceu. Um chute bem colocado de algum infeliz acabou com o sonho de mais uma vitória rubro-negra. Foi uma tristeza sem fim. Mas tudo bem. Futebol é assim. Às vezes se ganha, às vezes se perde.
Eu entendo isso.
Porém...
Os caras que estavam do lado aposto à minha mesa ao que parece não entendem. Começaram a comemorar de forma entusiasmada. Exagerada pra ser sincero. E isso me incomodou. Perder até que dá pra aguentar. Mas provocação de adversário é foda. Começamos então uma discussão básica, comum em situações assim. Era um "fdp pra lá", um "vai sifu" pra cá. Tudo na mais perfeita normalidade. Até que alguém tinha que estragar o bagulho. Ainda me lembro do choque que levei ao ouvir as palavras saindo e chegando até mim. Quase não consegui acreditar, mas era verdade. "Maranhense". Fui xingado de "maranhense".
Naquele momento, imagens da minha infância invadiram a mente. Todo o carinho que meus pais dedicaram a mim, todos os anos de estudo, tudo isso jogado na lama por causa de uma palavra:"maranhense".
Sou um cara pacífico ao extremo, mas tudo tem limite. A última ofensa foi demais. Desci a mão na cara do sacana e aí a confusão foi generalizada. Como resultado, levei um olho roxo pra casa.
Minha esposa, consciente de minha postura pacifista, estranhou tamanho ato de violência da minha parte. Mas recebi seu apoio e carinho quando revelei o motivo de minha indignação. Derramando-se em lágrimas, ela abraçou-me e foi solidária com minha dor. Minhas filhas, que estavam escondidas ouvindo nossa conversa, correram ao meu encontro e abraçaram-me como nunca haviam feito na vida. "Papai, nós te amamos. Não ligue para o que falaram", elas diziam entre lágrimas.
Depois de tanto apoio, consegui ter uma noite de refrigério. Entretanto, mal sabia o que a manhã iria me trazer.
Os ventos da maledicência já haviam espalhado a notícia na cidade onde morava. As pessoas me olhavam de um modo estranho, apontavam pra mim e soltavam risinhos. alguns me encaravam com aquele olhar de compaixão oferecido ao mais miserável dos homens.
E isso tudo ia me enchendo. Tentei não dar a mínima, mas confesso que foi difícil.
Na escola onde leciono, o alvoroço era geral. Mais do que apenas espalhar a notícia, algum engraçadinho gravou um vídeo da confusão e tratou de divulgar na rede. Logo todos estavam com ele em seus celulares. E faziam questão de assisti-lo enquanto eu me dirigia para a sala de aula. Tentei dar continuidade ao dia, mas os alunos agitados com a novidade não paravam de me interrogar para saber se a tal história era verdade. O alvoroço chegou aos ouvidos do diretor. Fui chamado a sua sala onde tivemos uma conversa.
Na verdade, um interrogatório. E não deu outra. Fui demitido.
O argumento era que não devia esconder algo tão grave assim . Que devia alertar as pessoas.
Fui pra casa arrasado. Culpado por um crime que não cometi. Marcado por algo fora do meu controle, da minha escolha.
E a velocidade como a história se espalhou me espantou demais.
Alguns vizinhos mais exaltados ,"convidaram-me" a mudar de endereço. Não queriam alguém da minha espécie difamando a comunidade. E assim foi.
E tudo por causa do "maranhense".
As pessoas me olham e pensam : "olha só. É aquele ali. Ele é que é de lá da terra do bigodudo, do homem dos atos secretos". "Foram eles que colocaram aquelas pragas no poder há mais de 40 anos. Eita, povinho alienado".
Confesso que sinto vergonha de ser maranhense.
...
Mas pensando bem...
Não há do que me envergonhar. O dinheiro desviado dos cofres públicos não está na minha conta. A miséria que afeta meu povo não foi originada por mim. A alienação que atinge o Estado não se propaga através da minha vida.
Não. Não é vergonha que eu devo sentir. Que você deve sentir.
O sentimento deve ser outro. Chama-se indignação.
Essa é a arma que podemos usar pra transformar o Estado em que vivemos naquilo que nós queremos que ele seja. Naquilo que ele pode ser.
Os pilantras que estão no poder é que deveriam sentir vergonha. Vergonha de tratarem de forma tão mesquinha e ordinária um povo sofrido como o nosso. Um povo que tem sonhos que poderiam virar realidade caso não estivessem debaixo das mãos de tantos homens gananciosos.

E a nossa luta continua. Para que "Maranhense" seja sinônimo de orgulho nacional e não o inverso. Para que nosso Estado seja conhecido pelo valor do seu povo e não pela corrupção de seus governantes.



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Um cara indignado. Indignado pelo modo como nosso país é guiado, pela maneira como a sociedade é moldada. E disposto a fazer a minha parte para mudar o mundo.

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